Até
parece música: “Oh, Maria do Cais, quem conheceu não esquece
jamais,…”. Quem viveu em Itajaí na década de 60 com certeza
sabe de quem estou falando. Não havia uma pessoa na beira do cais
que não tivesse conhecido ou ouvido falar de Maria, mulher forte,
valente, desbocada, prostituta e com um coração enorme.
Nascida
em Timbó (SC), Olga da Silva Leutério, verdadeiro nome de Maria do
Cais, é de origem pobre e foi adotada, ainda criança, por uma
família de alemães. Ela sentiu na pele a violência, aos sete anos
foi estuprada. Um pouco mais tarde, quando voltou a morar com a mãe
sofreu o assédio do padrasto e então fugiu de casa.
Alguns anos depois, não se sabe ao certo, Maria veio para Itajaí e se instalou na região do cais. Entre pescadores e estivadores, não havia quem não conhecesse aquela mulher de estatura avantajada. “A Maria do Cais foi uma mulher que na beira do cais, ela rodava a baiana mesmo. O pessoal que fazia a linha da Argentina, que estava muito aqui, já conhecia ela”, relembra Mário Luiz da Luz, trabalhador do cais na década de 60.
Maria
se instalou no antigo prédio da prefeitura de Itajaí, que ficava ao
lado da Capitania dos Portos, hoje demolido. Em meados de 1950 o
local estava em fase de construção, abrigaria a Alfândega, mas por
problemas políticos ou financeiros a obra foi abandonada, sendo
construído apenas o ‘esqueleto’, sem portas ou janelas. Mas
Maria não era a única a se instalar no prédio, outros que não
tinham onde morar e dormiam próximos ao cais do porto, também se
mudaram para lá. Maria era a líder, só morava no local quem ela
permitisse e ai daquele que desobedecesse Maria.
Em um depoimento à historiadora Rita Cássia das Neves Nardes, a própria Maria falou sobre o assunto. “Eu dava um lugarzinho para eles, pode ficar lá em cima, não quero bagunça, se tiver bagunça, eu mando chamar ‘os homens’”, diz ela.
Maria
do Cais recebeu este nome pelos seus serviços prestados na região
portuária. Em depoimentos, Maria nunca se definiu como prostituta,
mas falava que tinha errado demais, que fizera coisas que só o diabo
fez e se arrependeu depois. Mas a valente e desbocada figura do cais
também era conhecida pela sua solidariedade com aqueles que não
tinham nada. Maria ia até os barcos de pesca e pedia ao mestre do
barco peixe, se ele não dava, ela rogava uma praga, dizia que iam
morrer no mar.
Assim, Maria levava a vida, enfrentado polícia,
delegado, pescador, tudo para se proteger e proteger aqueles que
viviam com ela, e que de certa forma eram a sua família. Maria do
Cais, mulher forte, valente, mal criada, desbocada, prostituta,
amiga, solidária. Uma pessoa com o coração tão grande quanto a
sua fama pela cidade. Oh, Maria do Cais, quem te conheceu não
esquece jamais.
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